sábado, 9 de setembro de 2017

O rei de Vila Rica


Ilustração: José Efigênio Pinto Coelho
Pág. 43 do livro Tesouros, fantasmas e lendas de Ouro Preto

Chico Rei
Autora: Angela Xavier

Galanga Muzinga era rei de uma tribo no Congo. Seu reino enfrentava sério problema: os portugueses aprisionavam tribos inteiras e as levavam para o trabalho escravo em terras distantes. O próprio rei, sua família, a corte e os súditos foram aprisionados e levados para embarque rumo a destino desconhecido.
O rei de Portugal não permitia a entrada de pagãos na América. O papa havia decretado que os negros também tinham alma. Um padre jogou um balde d’água com duas colheres de sal sobre 191 prisioneiros, batizando todos os homens com o nome de Francisco e as mulheres se chamariam Maria.
Marcados a ferro em brasa com as iniciais do traficante, os passageiros, sentindo-se abandonados por seu deus Zambi Apungo, foram conduzidos ao veleiro Madalena, que os levaria ao Brasil.
Ali estavam, acorrentados e amontoados, no porão do navio, o rei Galanga, seu filho Zinga, a rainha Djalô e sua filha Itúlu, também toda a corte e alguns antigos súditos. Todos agora igualados no desamparo da escravidão.
Em alto mar, o veleiro encontrou águas revoltosas e fez água. Era preciso aliviar o peso jogando parte da carga ao mar ou naufragariam todos. Esse foi o destino das mulheres, sem nenhuma exceção. Eram mercadorias de menor valor. Os homens não conseguiram impedir. As correntes e chicotes eram superiores à força de suas vontades e desespero.
Chegou ao porto do Rio de Janeiro a carga mais valorizada de 112 escravos homens. O cheiro do veleiro estava detestável! Os negros foram levados, acorrentados uns aos outros, ao mar para serem lavados e tirar a sujeira acumulada durante a viagem. Negros forros, trabalhando de aluguel, cuidaram da limpeza dos prisioneiros. Após o banho de mar, passaram nos escravos buchas molhadas com azeite carrapateiro, depois trataram as feridas feitas pelos chicotes e argolas de couro cru no pescoço. A arte final foi feita com o azeite fino, que dava brilho à pele negra, valorizando a mercadoria.
Começaram a chegar os interessados em comprar negros para os vários trabalhos na próspera colônia brasileira. Um desses era o major Augusto, vindo de Vila Rica para adquirir uma nova leva de escravos para as suas minas. Depois de percorrer todo o mercado, seu capataz separou três fileiras de dez negros cada, entre os quais estavam Galanga, seu filho e parte de sua corte.
 
Foi uma longa e cansativa viagem a pé, através de campos e montanhas, do Rio de Janeiro para Vila Rica. Os pés descalços e os punhos amarrados se feriam e chegavam a sangrar.
Na senzala da casa do major Augusto os prisioneiros se adaptavam à nova realidade.
– Onde estamos? E esse frio que dói os ossos? Que será de nossas vidas? Perguntavam-se.
Galanga, com sua postura de rei, procurava acalmá-los:
– Não perdemos a vida. Agora é preciso paciência. A luta só acaba com a morte. Cada dia de vida é o que nos resta.
Para o major Augusto o novo grupo era sua esperança de encontrar ouro e saldar suas dívidas, que aumentavam com o tempo.
Era o primeiro dia de trabalho de Galanga – que tempos depois passaria a ser chamado pelos brancos de Chico Rei – na Mina da Encardideira, situada na área urbana de Vila Rica. Era um enorme buraco, cavado na montanha, onde os negros entravam e, cavando bem fundo, enchiam um calumbé de pizzara. Depois o traziam para fora onde, na bateia, apuravam o ouro existente.
A turma onde estava Chico se jogou ao trabalho com a vontade de quem deseja cavar uma nova vida, um dia de cada vez. O major sorriu feliz. Nunca tinha apurado tanto ouro. Chico enchia um calumbé atrás do outro, sem se permitir cansaço, para servir de exemplo de determinação para seu filho e conhecidos. Para tornar o trabalho menos penoso, frequentemente cantava músicas em seu idioma, e incentivava a outros que também fizessem parte de um revezamento diário de cantorias para espantar o cansaço e a tristeza do silêncio.
Entre os negros Chico continuava sendo um rei, e o exemplo de sua dignidade e persistência aumentava a esperança em dias melhores. Nas minas do major, onde Chico motivava seu grupo, o trabalho aumentava a descoberta do ouro. Tornou-se um escravo apreciado, não só pelo major, como por outros mineradores que desejavam comprá-lo.
Certo dia, major Augusto foi atacado por três escravos angolanos. O major caiu desacordado e os negros, dando-o por morto, fugiram rapidamente, com receio dos capatazes. O major foi levado para a Santa Casa da Misericórdia, onde foi tratado de seus ferimentos. A recuperação foi longa e difícil; ele ficou com os movimentos limitados em um dos braços e seu espírito nunca mais foi o mesmo.
Chico já falava suficientemente bem o português e era cada vez mais admirado por todos. Tornou-se amigo do padre Figueiredo, que propôs ao major a alforria do Chico, que tinha acumulado o suficiente para comprar sua liberdade. Nas minas, o escravo tinha a possibilidade de conseguir ouro, escondendo-o ou encontrando-o em quantias maiores que a estipulada pelo dono, como forma de motivar a produção.
A contragosto, o major vendeu a carta de alforria ao Chico. Concedeu-a em parte como forma de reconhecimento pelo trabalho que o havia enriquecido, mas também porque se não o libertasse, perderia a motivação daquele singular grupo de escravos que, buscando suas liberdades, aumentavam a prosperidade do major e sua família.
Chico Rei era, agora, um homem novamente livre. Empregou-se na Mina do Pitangui, que ofereceu pelo aluguel de seu trabalho valor um pouco acima dos demais contratados. Aos domingos, o dono da mina permitia que os melhores trabalhadores batessem por conta própria, nos locais que julgassem mais prósperos, dividindo o lucro do dia com o proprietário. No terceiro domingo de trabalho, Chico achou uma enorme pepita de ouro. Com sua parte do lucro, comprou a liberdade de seu filho com o abatido major, que ao fim de sua vida lhe dedicava crescente admiração. Chico tinha então trinta e sete anos.
 
Um dia, resolveu visitar o major Augusto, que se encontrava agora frequentemente doente. O major propôs vender-lhe a Mina da Encardideira, que considerava exaurida, mas que com muita dedicação e um tanto de sorte poderia ainda render um pouco de ouro. Como forma de gratidão pelos serviços prestados, o major afirmou que Chico poderia lhe pagar na medida em que encontrasse ouro. O preço combinado pela mina foi pequeno e a escritura foi passada em nome de Chico Rei, como forma de homenagem.
No dia seguinte ao registro da escritura, Chico e seu filho Zinga começaram a limpar a mina, que se encontrava abandonada. Mataram aranhas e escorpiões, tiraram pacientemente o entulho acumulado e drenaram água de algumas galerias mais profundas. Agora trabalhavam no que era seu, e conheciam bem aquela mina. Esforçaram-se muito até que o ouro se mostrasse. Metal de qualidade, 23 quilates. Combinaram manter segredo e foram enchendo de ouro um grande pote de barro, escondido no fundo da mina. Com esse ouro compraram a alforria dos trinta e sete membros ainda vivos de sua tribo do Congo, que passaram a trabalhar com eles. A Mina da Encardideira tornou-se um pequeno território livre do Congo dentro de Minas Gerais.
Dia 6 de janeiro de 1747 foi um dia de festa para os negros do Congo. Chico e todos os alforriados por ele compareceram à capela de Nossa Senhora do Rosário para agradecer pela vida que levavam então, depois de tanta dificuldade. Fizeram uma grande festa dedicada a Zambi-Apungo, representado no Brasil por Nossa Senhora do Rosário. Foi combinado que, todos os anos a partir daquele seria comemorada sua liberdade e dignidade, conquistadas com perseverança e união. Construir uma capela para Santa Efigênia, a santa negra, passou a ser uma meta para o grupo melhor comemorar sua prosperidade. Os esforços na mina se redobraram para alforriar mais negros e construir o templo, que foi erguido no terreno então pouco valorizado em cima de um morro, após uma íngreme e longa ladeira. Esta ladeira é hoje conhecida como Ladeira de Santa Efigênia, local pintado e retratado por muitos, com suas casas pequenas e simples, mas de uma beleza singular.
Pronta a capela em homenagem à Santa Efigênia, Chico foi coroado rei dentro dela, com autorização do bispo e do governador, com a presença de grande número de negros alforriados. Chico se vestiu nos trajes típicos da realeza africana, tendo em sua cabeça uma coroa de prata enfeitada com ametistas, uma vez que as autoridades não permitiram uma coroa de ouro, destinada aos “reis de verdade”.
Ao seu lado, sua nova esposa e agora também rainha, com quem Chico se casou em Vila Rica. Os participantes desta coroação se vestiram com roupas coloridas, em suas respectivas tradições africanas, com espelhos e chocalhos nos pés, dando o ritmo da dança ao som de tambores e rojões que estouravam. Depois da cerimônia, os participantes comeram e beberam à vontade, tudo por conta de Chico Rei. Essa festa inaugurou o coroamento dos reis do Congado em Minas Gerais.
O festivo cortejo da dança africana passou a percorrer as ruas de Vila Rica todos os anos a partir de então, saindo da Mina da Encardideira e subindo a ladeira em direção à Igreja de Santa Efigênia. Se apenas subir esta íngreme ladeira já é um feito considerável, subi-la dançando, cantando e tocando instrumentos, vestindo pesadas e luxuosas roupas, é algo admirável. Após cerimônia e festa na igreja, o cortejo se dirigia e terminava sempre na porta da prisão de Vila Rica, onde a nova rainha de Chico Rei distribuía presentes aos presos.
Era o Reinado do Rosário! Mesmo após a morte de Chico e sua corte, a tradição se manteve até a década de 1940, quando um bispo achou que aquela comemoração era profana. Aquilo mais parecia carnaval! E proibiu o congado na diocese de Mariana e região, que englobava Ouro Preto e outras cidades da região.
Após a morte deste bispo, esforços foram feitos para resgatar a tradição da Missa Conga e do Congado. Grupos que visitam Ouro Preto vão à Mina do Chico Rei para reverenciá-lo e à igreja de Santa Efigênia. Esses são símbolos fortes, perpetuados na memória popular.

Entrada da Mina do Chico Rei

Interior da Mina do Chico Rei 

Igreja de Santa Efigênia no alto da Ladeira de Santa Efigênia
( Ouro Preto - MG )
Imagem: http://olhares.uol.com.br/foto2698414.html 

Texto adaptado do livro “Tesouros, fantasmas e lendas de Ouro Preto”, de Angela Leite Xavier.
Págs. 44 a 49.
Edição do Autor; Ouro Preto (MG); 2009 (2ª edição).

Obs.: Esta postagem foi realizada mediante prévia autorização da autora.

Para mais "causos" e contos de Angela Xavier, acesse o blog dela:
Compartilhando Histórias

Livro : Tesouros, fantasmas e lendas de Ouro Preto

O livro reúne mais de 70 histórias, ambientadas do século XVIII até início do XX, coletadas junto a moradores ou em livros sobre a cidade. Olavo Romano, responsável pelo prefácio, afirma que "Ouro Preto era cheia de fantasmas, uma cidade mal iluminada, repleta de capelas e cemitérios, onde ninguém saia de casa depois das 21 horas. Trata-se de um livro que narra a História de Ouro Preto de uma forma agradável, à maneira dos contadores de histórias, e está entremeada de lendas e causos. Começa chamando a atenção do leitor para a necessidade de se preservar aquilo que faz parte da nossa memória e relata a descoberta do ouro, os conflitos que surgiram no início e as revoltas". 
A ênfase do livro é dada às histórias dentro da História, nas curiosidades que os livros de História não relatam, na sociedade que se formou ao redor das minas de ouro com suas crenças, seus valores e sua religiosidade. Relatos de grandes festas, de muitos casos assombrados e tesouros escondidos. A ilustração, com desenhos em bico de pena, é do artista plástico ouro-pretano José Efigênio Pinto Coelho.

sábado, 2 de setembro de 2017

Arte submersa

Esculturas Submarinas
PowerPoint (PPS)
Autor: Sylvio Bazote

Escultura Homem em Chamas (2011) no Museo Subacuatico de Arte em Cancun (Isla Mujeres - México)
Imagem: http://www.underwatersculpture.com 

O Maior museu submarino do mundo está situado em Cancún, no México. Com aproximadamente 400 esculturas e ocupando uma área de 150 metros quadrados, a instalação "A Evolução Silenciosa", do artista inglês Jason deCaires Taylor, tem a intenção de mostrar as mudanças das diversas gerações, desde os maias até o mundo moderno.
Os turistas podem apreciar as obras submersas em águas com excelente visibilidade usando equipamentos de mergulho, submarinos ou embarcações de fundo transparente.

Os modelos das esculturas são as pessoas das comunidades próximas. "A Jardineira da Esperança", por exemplo, é uma jovem latina da região, mostrando sua coleção de vasos, cujas 'flores' serão cultivadas com fragmentos de corais vivos, recolhidos de recifes danificados.

Como as obras de arte utilizam materiais naturais, não prejudicam o meio ambiente e permitem a multiplicação da vida marinha. Um dos objetivos das esculturas é desviar parte do fluxo de mergulhadores dos corais naturais, favorecendo sua recuperação.

O artista também realizou anteriormente trabalhos em outras partes do mundo. Entre outras obras, estão a escultura "O Correspondente Perdido" e a exposição "Vicissitudes", com 26 peças, situadas em Granada, país insular do Caribe. Esculturas como "O Colecionador de Sonhos" e "Homem em Chamas" também estão na região de Cancún.

O artista Jason deCaires Taylor com sua obra
Imagem: http://www.scubadiving.com/article/news/diving-cancuns-underwater-museum 

Visite o site do artista, onde as imagens das esculturas são atualizadas com a intenção de mostrar como as intervenções causadas pela ação da natureza criam novas obras.

Conjunto de esculturas Salão Nizuc, em Cancun (Isla Mujeres - México)

Conjunto de esculturas Os Banqueiros, em Cancun (Isla Mujeres - México)

Ação do tempo em escultura no Museo Atlantico Lanzarote (Ilhas Canárias - Espanha)

Escultura Vicissitudes (2007), em Granada (Caribe).

Escultura O Jardineiro da Esperança, em Cancun (México).

Escultura Inertia, em Cancun (México).

Escultura Selfie Clean, no Museo Atlantico Lanzarote (Ilhas Canárias - Espanha)

Uma das esculturas de Os Banqueiros (2012), em Cancun (Isla Mujeres - México)

Escultura Atlas (2014) em Nassau (Bahamas)

Vídeos:

Para ver os vídeos do canal oficial de Jason deCaires Taylor, acesse:
https://www.youtube.com/user/divetaylor/videos 

Jason deCaires Taylor and Museo Subaquatico de Arte
https://www.youtube.com/watch?v=oip5M3IJ4bI 
(6:36)

Building The World's Largest Underwater Sculpture
https://www.youtube.com/watch?v=k81odhXg2Lw 
(8:04)
Documentário em inglês com possibilidade de legendas

MUSA - Museo Subacuático de Arte ( Cancun )
(6:14)

Human Nature by Jason deCaires Taylor
(5:02)

Baixe a apresentação no link abaixo.
 Após acessar o link, ignore a mensagem informando "Erro para visualizar o documento", se esta aparecer. O Problema é apenas na visualização, mas o documento está disponível para ser baixado sem problema.
 Clicar em "Arquivo" abaixo de "Esculturas submarinas.pps" e depois clicar em "Fazer Download"; ou
 Ciclar na palavra "Here "ou  "Aqui em azul, se você usa o Google Chrome.

Link para Baixar o PowerPoint:
Esculturas Submarinas

sábado, 26 de agosto de 2017

O trem e a mineirice

O "trem" do mineiro
Autor: Sylvio Bazote

Trem Mineiro

A mineirice e o trem estão intimamente ligados!

O trem é elemento constituinte da história cultural do povo mineiro, sendo fator comum no imaginário, na linguagem, na estética e na música.

Em Minas Gerais, trem deixou de ser objeto e tornou-se conceito, capaz de designar de um simples lápis a uma cidade inteira, definir sentimentos e situações. É comum ouvir expressões como "trem bom", "trem ruim", "trem de doido", "trem estranho", "falando uns trem", entre tantas outras.

O trem cruza por montanhas e vidas, desfila diante de olhares e realidades diversas. Há os trens de carga, vinculados ao progresso e riqueza, que otimizam o transporte de produtos pelo país, gerando empregos e apoiando grandes empresas. Mas são os trens de passageiros, com seu ritmo lento que permite namorar as pessoas e paisagens, que ajudaram a formar e unir amizades e famílias por gerações, consolidando elos afetivos que ainda hoje causam reações emocionadas em quem conviveu com esta realidade.

Na era de realizações do progresso tecnológico no final do século XIX e início do XX, os trilhos costuraram redes de convivência entre cidades e pessoas, diminuindo distâncias e aumentando a comunicação. A chegada da ferrovia em uma cidade era garantia de desenvolvimento econômico e cultural. Trem era prosperidade e novas possibilidades nos lugares por onde passava.

Não sair da linha é seguir nos trilhos! Mineiro se identifica com o jeito contido e forte das locomotivas, com o ritmo tranquilo e confiável de fazer seu trajeto, com o conforto e privacidade que os restaurantes e cabines oferecem. Na segurança e calma oferecidas pelo trem, o mineiro viaja sentindo-se dentro de casa.

É este trem que se tornou íntimo, espécie de amigo com quem se pode contar, que se sabe onde e quando procurar com a certeza de encontrar. É ele que carrega o mineiro que, escondido entre as montanhas, conheceu o mundo, abriu suas terras e seus olhos quando o trem cruzou seu caminho.

O "trem" mineiro é, antes de tudo, um estado de espírito!

Trem em Tiradentes
Imagem: http://uaistreet.com.br/index.php/pt-BR 

Obs: Adaptação de conteúdo disponível na Internet. 

sábado, 12 de agosto de 2017

Fase histórica

Para facilitar a dominação investe-se em alienação ! 

( Homenagem in memoriam aos historiadores no Novo Ensino Médio )

Face Histórica (daqueles que lucram com a falta de informação e memória)
Imagem: http://www.linhadotrem.com.br/2016/09/historia.html 
Autor: Raphael Salimena

sábado, 5 de agosto de 2017

Caça ao tesouro


Mapa : Revista O Cruzeiro, de 10 de janeiro de 1953
Pág. 282 do livro Tesouros, fantasmas e lendas de Ouro Preto

O tesouro de Cláudio Manuel
Autora: Angela Xavier

Muitos são os buscadores de tesouros em Ouro Preto. Alguns gastaram anos de sua vida em busca de pistas, mapas e sinais que, muitas vezes, não levaram a nada. Mas o ser humano tem uma força dentro de si que o faz se empenhar, embrenhar nas matas, entrar em grutas escuras e desconhecidas, acreditar no improvável, apoiando-se num sonho.
Existe um tesouro ainda escondido: o tesouro de Cláudio Manuel. Talvez um tesouro patriota, guardado para a construção do país, para quando o Brasil se separasse de Portugal.
Muitos foram aqueles que buscaram por ele: o famoso tesouro dos inconfidentes! Seriam muitas arrobas de ouro escondidas num local de difícil acesso, próximo ao Pico do Itacolomi. O local estava indicado em documento, acompanhado de um mapa, com as indicações do local. Teria muitas pedras empilhadas e era preciso muito cuidado, porque elas teriam sido juntadas com certa massa alemã que explodiria dependendo do atrito. O local ficaria perto de uma cachoeira, na junção do Córrego do Baú com o Córrego do Itacolomi. Ali existiria uma grande pedra onde estariam gravadas as letras “CM”, de Cláudio Manuel.
Alguns caçadores de tesouros chegaram a localizar uma mina e entraram dentro até um grande salão. Chegaram a desmanchar muros de pedra dentro da mina e a tal massa alemã não explodiu. Era uma mentira para desencorajar os menos ousados! Aquilo era barro usado na junção das pedras.
O grupo percorreu o que foi possível dentro daquela mina e desmontou muitos muros em busca de vestígios. Havia degraus de pedra por dentro, feitos por escravos. Depois de descer uns dez metros mais ou menos, eles chegaram a um salão. O grupo trabalhou ali por mais de três anos e não achou nada. Dizem que as galerias desta mina chegam até o distrito de Itatiaia.
Um dos membros do grupo morreu dentro da mina, durante a busca do tesouro. Oficialmente a causa da morte foi por um problema cardíaco, agravado por dificuldades respiratórias. O povo comenta que ele foi morto pelo espírito do ouro que tanto buscou.
Nas décadas de 1940 e 1950, havia muitos caçadores de tesouro, percorrendo os arredores de Ouro Preto, na esperança de encontrar o tal Tesouro dos Inconfidentes.
Fato realmente extraordinário aconteceu com os cidadãos ouro-pretanos Inácio Pinheiro e Gilberto de Carvalho, no ano de 1939. O Instituto Butantã comprava cobras, aranhas e escorpiões para fazer vacinas e o então jovem Gilberto de Carvalho saiu procurando tais bichos nas horas de folga para ganhar um dinheiro extra. Revirando o porão de sua casa, onde fora a antiga Casa de Fundição de Ouro Preto, hoje Colé Presentes, ele encontrou uma caixa de madeira e dentro dela alguns documentos muito antigos, preservados em carvão. O documento era de 1788 e assinado por Domingos Affonso Bastos, que transcrevo na íntegra:

Bocaina do Triphuy

Aos 12 dias do mês de dezembro do ano do nascimento do Nosso Senhor Jesus Cristo de 1788.
Senhor Doutor Cláudio Manoel da Costa, por esta carta só tenho que fazer uma confissão sobre a vinda do senhor Domingos aqui. Passei algumas aflições para cumprir as tuas ordens, mas na mesma noite eu e o senhor Domingos matamos os sete escravos e o capataz, de acordo com seus mandados, e por minha conta matei a mulher do capataz. Isto fiz para nosso tamanho sacrifício não ser descoberto. Depois que me coube esta missão de derramar tanto sangue não deixei nenhuma testemunha a não ser a terra porque esta não tem boca para falar.
A mina, fechei o portão com a chave, dei algumas cargas para fazer o arreamento. Conforme o senhor queria não pôde ser devido as cargas mais fundas negarem. Só arriou uns 20 passos... A chave da mina deixei atrás do arco da ponte dentro de uma pedra lavrada, isto é, na entrada da ponte vindo da Vila para cá e o ouro que a mina produziu neste dois meses foram 405 barras com o peso de 3 libras e meia cada uma e para fundir mais 214 arrobas. Não tive tempo de embarrar tudo devido a sua carta e a minha moléstia que tem agravado mais. Tenho posto muito sangue estes dias. Pobre de um homem hético que deseja trabalhar e não pode e creio que não espero estes dias de nossa tranquilidade e como estou muito desconfiado com meu estado.
Declaro aqui que encontrei uma mina velha e esta aproveitei para esconder este ouro já apurado, 405 libras que estavam aqui. Esta mina só tem uns 60 passos de fundura e nela fiz um arreamento de 20 passos que é bastante, para o caso de perigo não ser descoberto este ouro apurado e como o senhor não sabe onde fica esta mina... a partir da ponte pelo rio acima do lado esquerdo fica este em frente do fojo que o senhor pegou os quatis, distante do fojo 16 passos da mina nova fica distante 380 passos, isto é, para o saber tudo.
Com esta carta também vai este desenho para melhor o senhor compreender caso o senhor queira tirar este ouro com pouco trabalho; no fundo da mina velha tem um suspiro e neste pus uma cruz de braúna conforme este desenho.
Domingos Affonso Bastos”

Imediatamente Gilberto entrou em contato com Inácio Pinheiro e os dois saíram atrás das indicações daquele tesouro. Seguiam o roteiro indicado no documento e chegaram à pedra lavrada no arco da ponte de Bocaina do Tripuí. Emocionados, tiraram a pedra e, dentro do local, encontraram uma chave de ouro maciço. Prosseguindo nas buscas, encontraram os nove esqueletos dos sete escravos, do capataz e sua mulher, mortos na ocasião do ocultamento do tesouro. Tudo ocorria de acordo com as indicações. Eles estavam muito animados e contrataram homens para ajudar.
A chave deu 64 gramas de ouro que eles venderam por um conto e quinhentos. Precisavam de dinheiro para prosseguir com as buscas. Gilberto de Carvalho comprou o terreno onde estaria a mina e passou a buscá-la incessantemente. Apostou tudo que tinha nesse sonho, mas não conseguiu encontrar a mina. Nas palavras do próprio Gilberto:
– De minha parte gastei 40 contos nas pesquisas. A mina deveria estar ali por perto. Mas esta é uma região em que os efeitos da erosão são quase inacreditáveis. É muito comum uma bananeira “viajar” muitos metros dentro desses quintais de Ouro Preto.
Esse foi o motivo alegado para o fato da mina não ter sido encontrada depois de anos de buscas.
Aos dois pesquisadores, juntou-se José da Costa Carvalho Filho, e os três foram ao Rio de Janeiro pedir financiamento. Precisavam de capital para continuarem as buscas do grande tesouro que seria dividido entre eles e o Governo Federal.
Getúlio Vargas era muito sentimental em relação a Ouro Preto por haver estudado na cidade em sua juventude. Ordenou o empréstimo de 300 contos de réis para a empreitada. Os pesquisadores do tesouro passaram meses no Rio de Janeiro às voltas com o Ministério da Fazenda, o Banco do Brasil e o Código Civil. Tamanha burocracia jogou por terra as pretensões dos três sonhadores e, com pouco dinheiro, voltaram decepcionados para Ouro Preto.
Esses homens passaram o resto de suas vidas atrás deste sonho: encontrar o tesouro do inconfidente Cláudio Manuel da Costa. Gastaram dinheiro, energia e tempo na empreitada. Não foram vitoriosos, mas viveram uma grande aventura.
– Posso dizer que conheço Ouro Preto por cima e por baixo da terra. Está tudo esburacado. Mais de uma vez penetrei nesse labirinto num dia, para sair exausto no dia seguinte. É uma coisa louca o entrelaçado das antigas minas abandonadas. Podem me chamar de doido, mas acredito na existência desses tesouros. Disse Inácio Pinheiro.

Obs: Documento original, mapa e reportagem da revista O Cruzeiro, de 10 de janeiro de 1953, fornecidos pela família de Gilberto de Carvalho.

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Texto adaptado do livro “Tesouros, fantasmas e lendas de Ouro Preto”, de Angela Leite Xavier.
Págs. 279 a 284.
Edição do Autor; Ouro Preto (MG); 2009 (2ª edição).

Obs.: Esta postagem foi realizada mediante prévia autorização da autora.

Para mais "causos" e contos de Angela Xavier, acesse o blog dela:
Compartilhando Histórias
http://www.angelaleitexavier.blogspot.com.br 

Livro : Tesouros, fantasmas e lendas de Ouro Preto

O livro reúne mais de 70 histórias, ambientadas do século XVIII até início do XX, coletadas junto a moradores ou em livros sobre a cidade. Olavo Romano, responsável pelo prefácio, afirma que "Ouro Preto era cheia de fantasmas, uma cidade mal iluminada, repleta de capelas e cemitérios, onde ninguém saia de casa depois das 21 horas. Trata-se de um livro que narra a História de Ouro Preto de uma forma agradável, à maneira dos contadores de histórias, e está entremeada de lendas e causos. Começa chamando a atenção do leitor para a necessidade de se preservar aquilo que faz parte da nossa memória e relata a descoberta do ouro, os conflitos que surgiram no início e as revoltas". 
A ênfase do livro é dada às histórias dentro da História, nas curiosidades que os livros de História não relatam, na sociedade que se formou ao redor das minas de ouro com suas crenças, seus valores e sua religiosidade. Relatos de grandes festas, de muitos casos assombrados e tesouros escondidos. A ilustração, com desenhos em bico de pena, é do artista plástico ouro-pretano José Efigênio Pinto Coelho.

segunda-feira, 1 de maio de 2017

(Fora) Do ar

Por 3 meses
este blogueiro estará temporariamente desligado
ou fora da área de serviço,
em hibernação & elaboração
do processo de criação!

Té +


Imagem: cliparts.com 

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Cavaleiros da Inconfidência

Celebrações do dia 21 de abril

Cavalgada da Inconfidência
A Ordem dos Cavaleiros da Inconfidência Mineira

A Ordem dos Cavaleiros da Inconfidência Mineira é uma instituição cívica, filantrópica e cultural que tem como objetivo social a divulgação da Inconfidência Mineira. Tem na sua essência uma das mais importantes premiações, ao reconhecimento de pessoas físicas e jurídicas que prestam comprovados serviços à história, a cultura e a sociedade.
É seguidora dos princípios tradicionais da Ordem dos Cavaleiros Hospitalares de Vila Rica, criada na antiga capital de Minas Gerais, possivelmente pelo inconfidente Tomás Antônio Gonzaga, por volta de 1779, atuando naquela cidade na época da colônia e que, paralelamente as atividades assistenciais praticadas, foi o berço do movimento que mais tarde seria conhecido como Inconfidência Mineira.

A OCIM tem como patrimônio sua sede em Belo Horizonte e o Sítio da Varginha (em Conselheiro Lafaiete) – tombado pelo Patrimônio Histórico de Minas Gerais – local onde está sendo implantado o projeto do Centro Cultural “Estalagem dos Inconfidentes” registrado no cartório de Registro Civil das Pessoas Jurídicas, em 1996, mantendo sua prestação de conta com os órgãos competentes e seus associados ativos.

A OCIM organiza, apóia e premia iniciativas culturais. Em ações filantrópicas, arrecada e distribui roupas, remédios, cestas básicas, apoio residencial, apoiando deficientes e operações emergenciais. Está entre as Ordens Cavalheirescas e Humanitárias mais antigas no Brasil, tendo caráter liberal e independente de controle de quaisquer autarquias ou organizações religiosas ou filosóficas.

Fonte:
Site da Ordem dos Cavaleiros da Inconfidência Mineira (OCIM)

Cavaleiros da Inconfidência e o Fogo Simbólico da Liberdade
Tiradentes - MG (2010)

Passagem do Fogo Simbólico da Liberdade
Praça Tiradentes - Ouro Preto (21 de abril de 2010)

O trajeto dos cavaleiros varia de acordo com os organizadores do ano, começando sempre no dia 21 de março, em variadas cidades, e terminando no dia 20 de abril em Ouro Preto. Em 2013, por exemplo, começou a partir de São Lourenço, passando por Baependi, Andrelândia, São Vicente, Carrancas, Madre de Deus, São João del-Rei, Tiradentes, Prados, Carandaí, Cristiano Otoni, Queluzito, Conselheiro Lafaiete, Ouro Branco e, por fim, Ouro Preto, com chegada dia 20 de abril e celebração da Inconfidência Mineira dia 21, quando a pira do “Fogo Simbólico” foi entregue ao Governador do Estado de Minas Gerais. Em outros anos, a cavalgada iniciou nas cidades de Carrancas, São João del-Rei ou Tiradentes.
São feitas paradas nas cidades pelo caminho para celebrações e homenagens cívicas de autoridades e escolas locais, exaltando os ideais de dedicação e sacrifício pela liberdade. Com o tempo, a celebração que era mais simples e afetiva tornou-se mais diversificada e politizada, aumentando a participação de diversas instituições civis e militares.

Em minha opinião, a cavalgada dos Cavaleiros da Inconfidência deveria começar sempre na cidade de Tiradentes e seguir pela Estrada Real para Ouro Preto, sem variação do trajeto. Penso também que a crescente variedade de medalhas e comendas distribuídas pela Ordem dos Cavaleiros da Inconfidência Mineira é um equivocado instrumento de politização de algo que deveria ser uma irmanação de pessoas na comunhão por uma mesma causa. Uma única medalha deveria ser entregue para todos que trabalhassem pelos ideais de independência e liberdade, propagados pela Conjuração Mineira. Assim, prefeitos, oficiais da polícia militar, artesãos, comerciantes e poetas, entre outros, teriam todos uma mesma medalha para igualá-nos na condição de "mineiros".
As condecorações são entregues para pessoas físicas e jurídicas que prestaram relevantes serviços para a história, cultura e sociedade de Minas Gerais, ajudando na propagação dos ideais de liberdade e igualdade.

Medalhas e comendas da Ordem dos Cavaleiros da Inconfidência Mineira (OCIM)

Certificado de Fiel Cavaleiro da Paz
Ordem dos Cavaleiros da Inconfidência Mineira ( OCIM )

Diploma e Colar do Mérito Cívico Joaquim José da Silva Xavier “Alferes Tiradentes”
Ordem dos Cavaleiros da Inconfidência Mineira ( OCIM )

Cavaleiros da Inconfidência (Conselheiro Lafaiete - MG)
em direção ao Sítio da Varginha para celebração cívica
Foto (18 Abr 2013) : Sylvio Bazote

Estalagem dos Inconfidentes (Sítio Arqueológico da Varginha)
Conselheiro Lafaiete (MG) - Km 2 da MG-129 (Estrada Real)
( Doação: Gerdau Açominas S.A.  )
Área sob responsabilidade da Ordem dos Cavaleiros da Inconfidência Mineira
com a árvore gameleira onde ficou pregada, em 1792, a perna direita de Tiradentes.
Foto (04 Ago 2015) : Sylvio Bazote

Monumento aos Inconfidentes de Queluz
Conselheiro Lafaiete (MG) - Km 636 da BR-040
( Região do Posto Trevão - 17 Abr 2013 )
Foto: Sylvio Bazote

Monumento aos Inconfidentes de Queluz
Conselheiro Lafaiete (MG) - Km 636 da BR-040
( Região do Posto Trevão - 17 Abr 2013 )
Foto: Sylvio Bazote

Parte do Monumento aos Inconfidentes de Queluz
Conselheiro Lafaiete (MG) - Km 636 da BR-040
( Ordem dos Cavaleiros da Inconfidência Mineira - OCIM )
Foto: Sylvio Bazote

Detalhe do Monumento aos Inconfidentes de Queluz
Conselheiro Lafaiete (MG) - Km 636 da BR-040
( Ordem dos Cavaleiros da Inconfidência Mineira - OCIM )
Foto: Sylvio Bazote


Videos :

Cavaleiros da Inconfidência Mineira (2011)
(2:34)

VIII Cavalgada da Inconfidência (2012)
(2:49)

IX Cavalgada da Inconfidência Mineira – OCIM (2013)
(23:23)

Fogo Simbólico  X Cavalgada da Inconfidência Mineira (2014)
(3:09)


Cavaleiros da Inconfidência em Andrelândia (MG)
(10 de abril de 2013)

Entrega do Fogo Simbólico da Liberdade em solenidade do dia 21 de abril de 2013
Praça Tiradentes - Ouro Preto (MG)
Imagem: http://pt.slideshare.net/MuriloAlvarenga/ordem-dos-cavaleiros-da-inconfidncia-mineira 


A chama da liberdade em Minas Gerais
Praça Tiradentes - Ouro Preto (21 de abril de 2014)
Foto: Tino Ansaloni ( Jornal Voz Ativa)
Imagem: http://www.jornalvozativa.com/medalha-da-inconfidencia-em-ouro-preto-no-dia-21-de-abril 


Para saber mais sobre a Inconfidência Mineira, acesse:
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