sábado, 20 de janeiro de 2018

Brasileiro cordial



Brasileiro cordial = Brasileiro passional

(Des)Construção do mito do brasileiro cordial

Tendo nascido em 1970, cresci ouvindo que o "brasileiro cordial" era a definição adequada para caracterizar a maior parte da população no Brasil. Eu entendia que essa cordialidade seria de pessoas pacíficas e de fácil trato; e por vezes via nos meios de comunicação que essa imagem era propagada também aos demais países, para incentivar o turismo.

As crescentes estatísticas de violência do cotidiano no nosso país e a recente onda de intolerância me levaram a acreditar que essa "cordialidade" era uma conveniente propaganda mentirosa, um equívoco ou uma condição extinta. Resolvi então compartilhar meu questionamento sobre isso aqui no blog e, para tanto, realizei uma breve pesquisa sobre o assunto, para não cometer erros elementares.
Comecei as consultas com a convicção que criticaria o conceito, insustentável diante do grande número de mortes no trânsito, dos crimes e brigas, das agressões contra mulheres e homossexuais, dos violentos enfrentamentos entre torcidas de futebol, da crescente falta de gentileza e verniz social no trato entre as pessoas nas ruas, nos veículos e nas redes sociais digitais.
Há os que afirmem que "brasileiro não é cordial, é cordeiro!", vivendo com preguiça ou medo de reagir, esperando que outros gastem tempo e energia resolvendo os problemas que também o afetam, querendo lucro sem esforço.
Parecia-me que os brasileiros confundem cordialidade com passividade, vivendo um imediatismo e alienação que conduzem a uma resignação com agressividade contida! Acreditava que os brasileiros cordiais ainda existem e persistem, mas que seriam uma espécie caminhando rapidamente para a extinção diante de tanta desonestidade, descaso e deselegância! 

Então compreendi que a cordialidade que eu questionava se refere à passionalidade, ao agir mais pelos impulsos da emoção do que pelos processos da razão. Então concordei com a definição desse brasileiro cordial = povo mais emocional do que racional! Compare os conceitos abaixo:

Cordial provém do latim cordialis ("relativo a coração"). Sérgio Buarque de Holanda (autor do clássico livro Raízes do Brasil, 1936) usa este termo para descrever o brasileiro como avesso a impessoalidade, valendo mais as relações de pessoalidade do que a cidadania. Cordialidade, nesse sentido, significa agir mais pela afetividade do que pelo raciocínio.
Esta "cordialidade" não é uma peculiaridade particularmente brasileira. Ela é comum às sociedades pouco desenvolvidas, próximas ao estágio de organização em torno de clãs familiares. Quanto menor é o nível educacional e cultural, há menos discernimento, mais impulsividade, mais barulho, mais efusão, mais contam os laços sanguíneos. Quanto mais educação, menos as atitudes se baseiam em emoção; e o fato de o brasileiro ser cordial, ou emocional, revela que somos (na média) um povo primitivo e imediatista.
Segundo Sérgio Buarque de Holanda, o "homem cordial" é um artifício, um ardil psicológico e comportamental, que está impregnado na formação do povo brasileiro. Por isso o autor afirma que "a contribuição brasileira para a civilização será o homem cordial".

Sinônimos de cordial
Que é educado e cortês; que possui sentimentos sinceros e afáveis. 
Fonte: https://www.sinonimos.com.br/cordial 

Sinônimos de passional: 
Que é intenso; irracional; impulsivo; apaixonado. 

Portanto:
brasileiro cordial = brasileiro mais emocional do que racional


Os brasileiros não são os únicos cordiais (impulsivos e inconsequentes) do planeta! Para ser justo, devo salientar que esta passionalidade é característica dos povos latinos (italianos, franceses, espanhóis e portugueses) e, por colonização, a América Latina e outros territórios espalhados pelo mundo.
Relatório divulgado pela ONG Visions of Humanity, em 2015, que elabora o Índice Global da Paz, aponta o Brasil como o 12º país mais violento do planeta, com 29 assassinatos para cada 100 mil pessoas (enquanto na Europa a média é de 2 assassinatos para cada 100 mil pessoas). Os gastos com segurança privada vêm aumentando seguidamente – reflexo do temor generalizado – e os progressivos gastos com segurança pública são insuficientes diante da escalada da violência. Mesmo que essas estatísticas não sejam precisas ou estejam desatualizadas, é inquestionável que a sensação de tranquilidade e segurança está cada vez menor!  
A América Central apresenta índices de violência proporcionalmente maiores do que a América do Sul. As nações e etnias na África estão em constantes guerras civis e massacres tribais e religiosos. As nações do sudeste da Ásia perpetuam preconceitos e intolerâncias. Os coreanos alimentam medo e ódio entre si. Os meios de comunicação mostram que a intolerância – que conduz à desconfiança e violência – é um problema generalizado em diversas populações e regiões do planeta, por motivos religiosos, raciais, culturais, políticos, econômicos, entre outros. 
Discordando de Sérgio Buarque de Holanda, penso que a "cordialidade" brasileira é apenas mais uma, entre outras, contribuindo na (des)construção para a civilização!

Fontes de referência:

Mundo Educação
O Homem Cordial na Formação do Brasil
Será que o brasileiro é mesmo cordial e pacífico? 
Índice Global da Paz aponta Brasil na 103ª posição, dentre 162 países

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